BRASIL; Protestantismo

De Dicionário de História Cultural de la Iglesía en América Latina
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A mais antiga forma de protestantismo a se estabelecer no Brasil foi o calvinismo, implantado durante a primeira invasão francesa, acontecida em 1555, sob o comando de Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571). O chefe invasor, depois de conquistar parte do Rio de Janeiro, pediu a Genebra o envio de pregadores reformados, solicitação esta que recebeu aprovação do “concistório” local e do próprio Calvino. Isto posto, foram escolhidos para tal missão dois pastores, Matthieu Verneuil e Jean du Bourdel, auxiliados por um grupo de irmãos de fé. Eram eles: Pierre Bourdon, Matthieu Verneuil, Jean du Bourdel, André la Fon, Nicolas Denis, Jean Gardien, Martin David, Nicolas Raviquet, Nicolas Carmeau, Jacques Rousseau e Jean de Léry.[1]

Os escolhidos chegaram ao Rio em 10 de março de 1556 e, no dia 21 seguinte, celebraram no Forte de Coligny a primeira “ceia” protestante da história americana; mas, a aventura não foi feliz. As tentativas de conversão dos nativos não deram resultado, levando Jean de Léery, a desabafar: “apesar das prédicas feitas a este povo bárbaro, nenhum indivíduo quis abandonar sua crença e converter-se…”.[2]Como se não bastasse, Villegaignon abjurou ao protestantismo e expulsou os calvinistas que tiveram de voltar para a Europa em 4 de junho de 1557. Outros três foram seriam estrangulados e jogados nas águas da baia de Guanabara no dia 9 de fevereiro do ano seguinte. Foi o fim da pioneira experiência protestante em solo brasileiro.[3]

Os portugueses conseguiram expulsar definitivamente os últimos franceses do Rio de Janeiro em 1567, mas, uma nova investida do calvinismo aconteceu quando os holandeses conquistaram a Bahia em 1624. Assim, no dia 11 de maio daquele ano se celebrou em Salvador o primeiro culto da Igreja Reformada. Tratou-se de uma experiência fugaz pois os invasores acabaram sendo expulsos em 1º de maio do ano seguinte. Em 1630, no entanto, os holandeses voltaram, estabelecendo-se no Pernambuco. Também desta vez, desde o início tiveram ministros religiosos calvinistas servindo suas tropas a exemplo de Johannes Baers, que depois escreveu: “Fiquei em Olinda dez semanas […] e ajudei a introduzir a prédica da Palavra de Deus e o ‘verdadeiro’ culto divino”.[4]

Ao tempo do governo de Johan Maurits van Nassau-Siegen, conhecido no Brasil come João Maurício de Nassau (1604-1679), o domínio holandês atingiu sua máxima grandeza, englobando territórios que se estendiam do Sergipe ao Maranhão; mas, o calvinismo permaneceu sempre uma ínfima minoria. Mesmo assim, foram organizadas 22 igrejas e congregações, dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e um sínodo, o Sínodo do Brasil (1642-1646). Suas comunidades eram servidas por mais de 50 pastores (“predicantes”), além de pregadores auxiliares (“proponentes”) e outros oficiais. Apesar disso, por motivos de conveniência, os holandeses tiveram de tolerar a liberdade de culto dos católicos, malgrado tenham expulsado vários religiosos e ocupado arbitrariamente diversas igrejas para nelas celebrarem seus cultos.

Também proibiram a presença de visitadores do bispo da Bahia, o pagamento de dízimo aos padres e a substituição dos religiosos falecidos com outros novos.[5]Por outro lado, as tentativas de fazer novos adeptos para o calvinismo, exceção feita a alguns grupos indígenas, foram um fracasso, como veio a reconhecer Gaspar Barléu (1584-1648): “È muito tênue a esperança de conversão dos papistas...”[6]

Deve-se acrescentar ainda que os protestantes holandeses se envolveram em casos de intolerância violenta, como os massacres realizados no Rio Grande do Norte em 1645. Por isso, a “Insurreição Pernambucana” que eclodiu naquele ano, também teve motivações religiosas. Foi entoando a Salve Regina que os insurgentes brasileiros se lançaram contra os invasores na vitoriosa batalha do Monte das Tabocas em 3 de agosto de 1645. Eles reconquistaram a cidade de Olinda aos 24 de abril de 1648 e, após o triunfo decisivo na segunda batalha dos Guararapes, no dia 19 de fevereiro de 1649, naquele lugar seria construída a igreja de Nossa Senhora das Vitórias. Enfim, em 27 de janeiro de 1654 os holandeses tiveram de firmar a rendição em Recife. Com a sua partida, acabaram sendo eliminados todos os sinais de presença calvinista no Brasil.[7]

No século XIX os protestantes reapareceram. Isso aconteceu porque em 1808 a família real portuguesa, fugindo da invasão napoleônica, se estabeleceu no Brasil, abrindo, no dia 25 de novembro daquele ano, os portos da colônia às “nações amigas”. Percy Clinton Sydney Smythe, Lord Strangford (1780-1855), diplomata britânico que acompanhara os nobres na sua fuga, conseguiu em 1810 que fossem estabelecidos dois tratados entre Portugal e Inglaterra, um de comércio e navegação e outro de amizade. O primeiro deles, datado de 19 de fevereiro, continha dois artigos concedendo a liberdade de culto privado para os ingleses. Assim, eles passaram a realizar celebrações anglicanas em navios de guerra ancorados no porto do Rio ou em residências particulares, entre as quais a do próprio Lord Strangford, até que, em 1816, chegou um capelão, Rev. Robert C. Craine. Em 12 de outubro de 1819 seria lançada a pedra fundamental do primeiro templo protestante do Império, localizado à rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga), inaugurado no dia 26 de maio do ano seguinte. Sucessivamente, outras igrejas anglicanas foram erigidas em Niterói, São Paulo, Santos e Recife; mas, a denominação jamais progrediu no Brasil, até porque, seu culto era celebrado somente em língua inglesa e os ministros nunca desenvolveram qualquer atividade missionária.[8]

Nesse meio tempo, protestantes de outras nacionalidades também começaram a imigrar, mas, como os primeiros, tampouco criaram raízes. Por este mister, ao ser proclamada a independência em 1822, nenhum culto reformado ainda celebrava em português no Brasil. Mesmo assim, a primeira Constituição brasileira, outorgada em 1824, tolerou o culto privado dos não católicos. Foi justamente no dia 18 de julho daquele que um grupo de luteranos proveniente da Alemanha se estabeleceu em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Desde o início contou com a presença de um pastor e, o grupo se reforçaria com as levas subseqüentes.[9]

Antes que o Primeiro Império terminasse, em junho de 1827, o cônsul da Prússia, Karl Wilhelm von Theremin (1784-1852), organizou a "Comunidade Protestante Alemã-Francesa do Rio de Janeiro", onde se reuniam imigrantes luteranos e calvinistas. O primeiro pastor foi um certo Ludwig Neumann; mas, com o tempo, dita comunidade perdeu seu ecletismo religioso, assumindo uma feição tipicamente luterana. Em seguida, no período regencial, novas tentativas de infiltrações protestantes se verificaram, provenientes sobretudo dos Estados Unidos.

O primeiro ministro yankee a colocar os pés no Brasil foi Fountain Pitts, um jovem pastor metodista de 27 anos de idade, que desembarcou no Rio de Janeiro aos 19 de agosto de 1835, para uma primeira sondagem. Ele regressou à sua pátria em 1836 e, com base nas informações que deu, foi enviado para missionar no Brasil Justin Spaulding (1802-1865), que desembarcou em 19 de agosto de 1836. Para auxiliá-lo vierm depois outros missionários, entre eles Daniel Kidder (1815-1891), che chegou em 1837, permanecendo até 1840. Nenhum desses pioneiros conseguiu resultados satisfatórios e o metodismo abandonou o Brasil em 1842, aonde retornaria apenas em 1867.[10]

A segunda metade do século XIX foi o período em que o protestantismo se estabeleceu de vez no Brasil. Uma iniciativa de parcial sucesso foi realizada pelo médico escocês, Robert Reid Kalley (1808 – 1888), membro da Igreja Congregacional, chegado ao Brasil em 10 de maio de 1855. Ele entrou no país já conhecendo a língua portuguesa, pois havia trabalhado durante oito anos em Funchal, na Ilha da Madeira, até que de lá fora expulso. Em 11 de julho de 1858, com um pequeno grupo de neófitos, ele fundou a assim chamada “Igreja Evangélica”, rebatizada em 1863 como “Igreja Evangélica Fluminense”

Paralelamente, aos 12 de agosto de 1859, chegou o pregador presbiteriano Ashbel Green Simonton (1833 – 1867) que, aos 12 de janeiro de 1862, junto de outro recém-chegado, o alemão naturalizado estadunidense Francis Joseph Christopher Schneider (1832-1910), inaugurou o primeiro templo da sua confissão no Rio de Janeiro. Seguiu-se a fundação do jornal quinzenal A Imprensa Evangélica em 1864, e a formação do presbitério em 1865. Dito presbitério contava apenas com a igreja mãe do Rio, e, fora da capital federal, as pequenas comunidades de São Paulo (fundada em 1863) e Brotas (1865). Depois dessas surgiriam novos núcleos em Lorena (1868), Sorocaba (1869), e Borda da Mata (1869).[11]

O primeiro pastor presbiteriano brasileiro foi um padre apóstata paulista chamado José Manoel da Conceição (1822-1873), ordenado em 1845. Homem psicologicamente instável, acabou sendo dispensado da maioria das funções sacerdotais, indo viver numa pequena casa de campo, nos arredores de Rio Claro. Ao saber da sua situação, Alexander Latimer Blackford (1829-1890), cunhado de Simonton, foi contatá-lo, convencendo-o a aderir ao Presbiterianismo. No dia 30 de outubro de 1866 ele foi condenado como herege e incurso ipso facto na pena de excomunhão maior.[12]

José Manoel não parece ter se perturbado com a condenação, pois no dia 17 de dezembro do mesmo ano aceitou tranqüilamente de se tornar pastor. Suas crises, no entanto, não cessaram, e Simonton em pessoa diria aos 26 de novembro de 1864, que o ex-padre estava tão deprimido com seus sofrimentos nervosos, que “a morte lhe seria alívio”.[13]Mesmo assim, a atuação que desenvolveu foi considerada determinante e quando morreu em Irajá/ RJ, na véspera do natal de 1873, as bases para a expansão futura do protestantismo no Brasil já estavam consolidadas.[14]

Outras denominações protestantes também chegaram naquele período. Foi o caso da Missão Metodista episcopal, em 1867 e da Missão Batista, em 1881; seguidas da Missão Episcopal, em 1890; e ainda da Help for Brazil, congregacionalista, fundada em 1893.[15]Todas elas contavam com apoio de certos anticlericais, que não dispensavam aliados na luta contra o “ultramontanismo”. Obviamente que nenhum opositor do Catolicismo se converteu ao protestantismo, pois se tratava de mero oportunismo político, razão pela qual Dom Vital viria a denunciar o “trabalho incessante de protestantinizar o país”.[16]Dom Antônio de Macedo Costa manifestou igual apreensão em 1875, na dedicatória contida no catecismo popular que lançou: “À augusta, à Imaculada Virgem Maria, protetora do Império de Santa Cruz; que não permitirá jamais que nesta terra católica lance raízes a impiedade protestante”.[17]

O receio era fundamentado, pois um verdadeiro paradoxo se afirmou: o Catolicismo, na condição de religião de Estado, era cerceado por um sufocante regalismo, enquanto que o protestantismo, oficialmente sob variadas restrições legais, gozava de grande liberdade de ação. Como bem explicou Dom José Pereira da Silva Barros, bispo de Olinda, tratava-se de verdadeira hipocrisia institucionalizada: “Com efeito, os dissidentes, sem algum embargo do poder civil, faziam no Brasil a mais livre propaganda, pregando as suas descrenças particular e publicamente, distribuindo bíblias falsificadas e folhetos plenos de heresias, de afrontas e diatribes contra a Igreja, seu Chefe, seu culto e seus ministros; batizavam e rebatizavam; casavam a quantos os procuravam nesse intuito, estrangeiros e nacionais, mesmo ligados a impedimentos dirimentes reconhecidos pelas leis civis; tinham seus cemitérios e sepultavam neles os seus mortos com as cerimônias de seus ritos e sem alguma dependência do poder eclesiástico; possuíam seus templos com formas bem diversas das usadas nas habitações particulares e neles celebravam seus cultos publicamente, com as portas abertas a todo povo; viviam enfim no Império, como se habitassem um país protestante. Se além da «liberdade» não havia «igualdade» (os grifos são do autor) dos cultos, era porque os acatólicos levavam vantagens aos católicos no gozo de imunidades. Parecerá absurdo e estranho isto, mas é a verdade dos fatos”.[18]

A secularização do Estado em 1890 e Constituição laica de 1891 instituiram a não interferência política em matéria religiosa. O Catolicismo se viu, enfim, livre para reestruturar-se, e o protestantismo, por outra parte, foi reforçado com a chegada de novas denominações. No século XX o pentecostalismo se tornou o grande fenômeno, vindo a se converter na mais numerosa e aguerrida facção neo-protestante no país. A primeira seita pentecostal teve início aos 8 de março de 1910, por iniciativa de dois italianos: Luigi Francescon (ex-valdense) e Giacomo Lombardi, que deram origem, no bairro paulistano do Brás, a uma comunidade que viria mais tarde a ser chamada de “Congregação Cristã no Brasil”.

Contemporaneamente, dois pregadores batistas suecos, depois de residirem nos Estados Unidos, chegaram a Belém do Pará no dia 19 de novembro de 1910. Eram eles Daniel Berg (1885-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933). Desentendendo-se com a comunidade eclesial de origem, a causa das práticas pentecostais que adotavam, como a glossolalia, fundaram um grupo a parte chamado de “Missão da fé apostólica”. Aos 11 de novembro de 1918, sabendo da existência nos Estados Unidos de uma certa “Assembléia de Deus”, optaram por utilizar o mesmo nome, mas sem manter filiação com sua similar norte-americana. A partir daí, a proliferação de novas seitas se transformou numa realidade dramática.[19]

Isso levou depois Dom Sebastião Leme a lançar um alerta ainda hoje não devidamente respondido: “Nossas trincheiras estão sendo invadidas pelo inimigo. Espiritismo, Protestantismo, livre-pensamento, ódios sectários, anarquismo, o respeito humano, a descrença enfim, enfim, e o indiferentismo religioso penetram em nossos arraiais. Mas... os soldados são poucos, os soldados jazem por terra, sonolentos, feridos de tédio, cheios de torpor...”[20]

Notas

  1. Members of Stablished Church, The Christian observer, vol. 26, Elierton and Handerson, London 1827, pp. 743-744.
  2. Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil, Livraria Martins, São Paulo 1941, pp. 31, 86.
  3. Jean de Léry, Viagem à terra do Brasil, p. 27.
  4. Hélio Vianna, História do Brasil, 12ª ed., Edições Melhoramentos, São Paulo 1975, p. 155.
  5. Gaspar Barléu, História dos feitos praticados no Brasil durante oito anos sob o governo do Ilústríssimo Conde João Maurício de Nassau, pp. 47, 52.
  6. Gaspar Barléu, História dos feitos praticados no Brasil durante oito anos sob o governo do Ilústríssimo Conde João Maurício de Nassau,, pp. 136-137.
  7. Cf. Maurílio César de Lima, Breve história da Igreja no Brasil, Edições Loyola, São Paulo 2004, pp. 54-56.
  8. Carl Joseph Hahn, História do culto protestante no Brasil, ASTE, São Paulo 1989pp. 70 – 72.
  9. Ida Teresa Ceron, Consciência viva, Editora Pallotti, Santa Maria 1987, pp. 404 – 405.
  10. Justice C. Anderson - Justice Anderson, An Evangelical Saga: Baptists and their precursors in Latin America, Xulon Press, Maitland 2005, pp. 39-40.
  11. Júlio Andrade Ferreira, Galeria evangélica, Casa Editora Presbiteriana, São Paulo 1952, pp. 14 – 15, 48.
  12. ASV, “Circular”(19-2-1867), em: Nunciatura Apostólica no Brasil, fasc. 185, caixa 41, fl 22 – 23.
  13. Ashbel Green Simonton, Diário, 1852 – 1867, Casa Editora Presbiteriana, São Paulo 1982, p. 195.
  14. Émile G. Léonard, O Protestantismo no Brasil, ASTE, São Paulo 1963, pp. 56 – 67.
  15. Cf. Émile G. Léonard, O Protestantismo no Brasil, pp. 73 – 74.
  16. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, Abrégé Historique de la question Religieuse du Brésil, Imprimerie de la Propagande, Rome 1875, p. 19.
  17. Antônio de Macedo Costa, Sobre a Igreja Católica, Tipografia Moreira, Maximino & Cia, Rio de Janeiro 1875p. 3.
  18. ASV, Carta de Dom José ao Internúncio (25-1-1890), em: Nunciatura Apostólica no Brasil, fasc. 330, caixa 68, doc. 15, fl. 35.
  19. Dilermando Ramos Vieira, O processo de reforma e reorganização da Igreja no Brasil (1844-1926), Editora Santuário, Aparecida 2007, pp. 507-508.
  20. Laurita Pessoa Raja Gabaglia, O Cardeal Leme, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro 1962, p. 106.

DILERMANDO RAMOS VIEIRA