HENRIQUE, O NAVEGADOR

De Dicionário de História Cultural de la Iglesía en América Latina
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(Porto, 1394 - Vila do Infante, Portugal, 1460) Marinheiro, Militar, Político.

Henrique o Navegador, Infante de Portugal, deu um impulso decisivo à exploração das ilhas e às costas africanas do Atlântico. Filho do rei Juan I de Portugal e Felipa de Lancaster, em sua juventude ele recebeu um cuidadoso treinamento humanístico, especialmente notável em disciplinas como política e literatura e na arte da guerra. Em 1415, com apenas vinte e um anos de idade, ele demonstrou suas habilidades militares durante a conquista de Ceuta, cidade da qual ele foi mais tarde governador.

Os portugueses queriam dobrar o Cabo Bojador que era visto como um limite intransponível de navegação longo a costa ocidental da África. No seu livro «Chronica da Guiné» Azurara,[1]explica por qual motivo os navegadores tinham medo de ir além do Cabo Bojador. O capítulo VIII desta obra tem como titulo: “Porque razom nom ousavam os navyos passar a allem do cabo Bojador”:

[...]o iffante [...]que pero la envyasse muytas vezes, e ainda homeẽs que per experiencia de grandes feitos, antre os outros avyam no officio das armas avantejado nome, nunca foe alguũ che ousasse de passar aquele cabo do Bojador para saber a terra daalem, segundo o iffante desejava. E esto por dizer verdade, nem era com mingua de fortelleza, nem de boa voontade, mas por a novidade do caso, mesturado com geeral e antiga fama, aqual ficava já antre os mareantes. [...]era grande duvida qual serya o primeiro que quisesse poer sua vida em semelhante ventuira. [...]antre tantos e tam nobres, e que tam grandes e tam altos feitos fezerom [...]. [...] deziam os mareantes, que despois deste cabo nom ha hi gente nem povoraçom algũa; a terra non he menos areosa que os desertos de Lybia, onde nom há augua, nem arvor, nem herva verde; [...]. As correntes som tamanhas, que navyo que la passe, jamais nunca podera tornar. E por tanto os nossos antecessores nunca se antremeterom de o passar. [...] ca doze annos continuados durou o iffante em aqueste trabalho, mandando em cada huũ anno a aquella parte seus navyos, com grande gasto de suas rendas, nos quaaes nunca foe alguũ que se atrevesse de fazer aquella passagem. Bem he que elles nom se tornavam sem honra, ca por enmendar o que falleciam em nom compryr perfeitamente o mandado de seu senhor, huũs hyam sobre a costa de Graada [...] ataa que filhavam grossas presas dos infiees, com que se tornavam honradamente pera o regno”.[2]

O Infante Henrique via na expansão africana “algo inspirado diretamente de Deus”, expondo ao rei sua própria posição de “que a guerra aos muçulmanos seja ao serviço de Deus isto não tenho dúvida, porque a Igreja é quem propõe”.[3]

Ao narrar a expansão portuguesa pela África, Gomes de Azurara assinala cinco razões pelas quais o infante levara adiante seus empreendimentos: “E vos devees bem de notar que a magnanydade deste principe, per huũ natural costrangimento, o chamava sempre pera começar e acabar muy grandes feitos, por cuja razom depois da tomada de Cepta, sempre trouxe continuadamente navyos armados contra os infiees; e porque elle tinha voontade de saber a terra que hya a allem das ilhas de Canarya, e de huũ cabo, que se chama do Bojador, porque ataa aquelle tempo, nem per scriptura, nem per memorya de nhuũs homeẽs, nunca foe sabudo determinadamente a callidade da terra que hya a allem do dicto cabo.

[...]E porque o dicto senhor quis desto saber a verdade, parecendolhe que se elle ou alguũ outro senhor se nom trabalhasse de o saber, nehuũs mareantes, nem mercadores, nunca se delle antremeteryam, porque claro sta que nunca nehuũs daquestes se trabalham de navegar senom pera donde conhecidamente speram proveito; e veendo outrossy como nhuũ outro príncipe se trabalhava desto, mandou elle contra aquellas partes seus navyos, por aver de todo manifesta certidom, movendosse a ello por serviço de Deos, e del Rey dom Eduarte seu senhor e irmaaõ, que a aquelle tempo regnava. E esta ataa quy foe a primeira razom de seu movimento.

E a segunda foe [...] que achandosse em aquellas terras algũa povoraçom de xpãaos, ou alguũs taaes portos, em que sem perigoo podessem navegar, que se poderyam pera estes regnos trazer muytas mercadaryas, que se averyam de boõ mercado [...] levaryam pera la das que em estes regnos ouvesse, cujo trafego trazerya grande proveyto aos naturaaes.

A terceira razom foe, porque se dezia, que o poderyo dos Mouros daquella terra dAfrica, era muyto mayor do que se comuũmente pensava, e que non avya antre elles christaãos, nem outra algũa geeraçom. [...] per natural prudencia, he costrangido a querer saber o poder de seu imiigo, trabalhousse o dicto senhor de o mandar saber, pera determinadamente conhecer ataa onde chegava o poder daquelles infiees.

A quarta razom foe, porque de XXXI annos que avya que guerreava os Mouros, nunca achou rey christiaão, nem senhor de fora desta terra, que por amor de nosso senhor Jhũ Xpõ o quysesse a dicta guerra ajudar. Querya saber se se acharyam em aquelas partes alguũs príncipes xpaãos, em que a caridade e o amor de Xpõ fosse tam esforçada, que o quisessem ajudar contra aquelles imiigos da fé.

A quinta razom, foe o grande desejo que avya de acrecentar em a sancta fe de nosso senhor Jhũ Xpõ, e trazer a ella todallas almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mesteryo da encarnaçom, morte e paixom de nosso senhor Jhũ Xpõ, foe obrado a este fim.”.[4]

No ano de 1441, um navio capitaneado por Antão Gonçalves,[5]tinha a tarefa de trazer ao retornar, óleo e pele de foca, mas a sua ambição o fez pensar: “conseguir a capturar alguns indígenas; o príncipe ficaria feliz, e não pouco”. Capturou dois homens ao longo do Rio d’Ouro, serão os primeiros levados a Portugal das terras além Bojador.[6]Por meio destes «sucessos» chegaram aos portos do Reino preciosas mercadorias, nunca dantes vistas: ouro, marfim, tintas, pimenta, açúcar e finalmente, em 1441, escravos africanos”.[7]

Antão Gonçalves, ainda no rio d’Ouro se encontrou com Nuno Tristão,[8]juntos encontraram um grupo de indígenas e os atacaram ao grito de “por Portugal e por São Tiago”. Neste ataque mataram quatro e capturaram dez. Gonçalves retornou para à Portugal e Tristão avançou ainda mais ao sul, em obediência ao comando de “capturar gente de todos os modos e possivelmente com o melhor dos modos”, chegando a Cabo Branco em 1441.[9]

O cronista Azurara nos deixou escrita sua impressão da chegada dos primeiros escravos em Portugal, no capítulo VIII “Como Antam Gllz, e despois Nuno Tristam, chegarom ante o Iffante com sua presa: Nom posso contemplar na chegada destes navyos, com a novydade daquelles servos ante a face do nosso principe, que nom ache algũa deleitaçom, porque me parece que vejo ante os olhos, qual serya sua folgança, porque quanto as cousas som mais desejadas, e se mais e mayores trabalhos por ellas despoõe, tanto trazem com sygo mayor deleitaçom, quando as homem pode cobrar. [...] e veendo agora o começo do retorno [...] nom pella cantidade daquelles, mas polla sperança que tiinhas dos outros que podyas aver! [...]

E justamente lhe posso chamar pequena, em comparaçom de tua grandezza, sem aqual nom podyas, nem sabyas começar nem acabar algũa parte de teus feitos, soomente hũa santa entençom, que avyas de buscar salvaçom pera as almas perdidas, segundo já disse no VII cap°. desta obra, pello qual te pareceo, quando viste aquelles em tua presença, que nom tiinhas algũa cousa despesa: tanto te prazia de sua vista, ainda que a força do mayor bem era delles meesmos, ca posto que os seus corpos stevessem em algũa sogeiçom, esto era pequena cousa em comparaçom das suas almas, que eternalmente avyam de possuyr verdadeira soltura”.[10]

O infante D. Henrique obtém os direitos e o monopólio do tráfico das descobertas realizadas. Com isto a ninguém era permitido estar nas zonas do cabo Bojador para fazer guerra, trocar mercadorias sem que o infante pemitisse. Da mesma forma não poderiam embarcar naquelas regiões prisioneiros ou mercadorias sem pagar a Henrique o «quinto» que, normalmente, era pago ao rei. O monopólio era a forma de recompensar Henrique “pelas grandes despesas” que havia feito.[11]

Importante recordar as indulgências concedidas em ocasião das conquistas como a de Eugenio IV: “[...] Eugenius episcopus servus servorum Dey. [...] Como assy seja que da parte de nosso amado filho e nobre barom Henrique, duque de Viseu, e ministrador no spiritual e temporal, da cavallarya da ordem de Jhũ Xpõ. [...] os cavalleiros e irmaaõs da dicta ordem, e assy todollos outros fiees xpaãos, que contra os dictos Mouros e outros imiigos da fe, que contra elles, com a graça de Deos, batalha e guerra quiserem mover e moverem sob a bandeira da dicta ordem: Nos por tal que esses fiees xpaaõs com mayor fervor se movam e animem aa dicta guerra: A todos e a cada huũ que na dicta guerra e atalha forem, per autoridade apostollica, e per o theor das presentes letras, concedemos e outorgamos comprida perdoança de todos seus pecados, dos quaaes de coraçom sejam contritos, e per boca confessados. E nom convenha a nhuũ esta carta de nosso mandado quebrar, ou contradizer[...]”.[12]

No ano de 1448, muitos serão os navios que já teriam dobrado o cabo Bojador indo àquela que será chamada a Guiné portuguesa. Azurara, no penúltimo capítulo - LRVI (96) “Como o autor declara quantas almas forom trazidas a este regno despois do começo desta conquista - da sua crônica escreve que teriam sido capturados 927 escravos, ou como o cronista escreveu «almas» e «a mayor parte forom tornadas ao verdadeiro caminho da salvaçom”.[13]

Graças ao impulso da Henrique o Navegador, Portugal esteve na vanguarda das técnicas de navegação que experimentaram um avanço sem precedentes. Isso permitiu que, pouco depois de sua morte, ocorreu em novembro de 1460, Bartolomé Díaz dobrou em 1487 o Cabo da Boa Esperança.

Indiretamente, o trabalho de Henrique O Navegador que promoveu importantes melhoramentos técnicos nos instrumentos de navegação e no design dos navios, permitiu a Cristóvão Colombo em 1492 aventurar-se no misterioso e desconhecido Oceano e realizar a Descoberta da América.

NOTAS

  1. Azurara ou Gomes Eanes de Zurara (1404 ca.- 1474) chamado Zurara ou Azurara escreveu quatro crônicas que são a principal fonte de informação sobre a expansão portuguesa na primeira metade do século XV. Foi comendador da Ordem de Cristo. Suas crônicas são relativas a Ceuta , o norte da África e as viagens de exploração longo a costa africana (Chronica da Guiné).
  2. G. E. DE AZURARA, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, J. P. Aillaud, Paris 1841, 51-55.
  3. Cfr. B. W. DIFFIE – G. D. WINIUS, Alle origini dell’espansione europea – La nascita dell’impero portoghese 1415-1580, il Mulino, Bologna 1985, 94.
  4. G. E. DE AZURARA, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, 44-47.
  5. Será ele o mercador de escravos de Henrique.
  6. Cfr. B. W. DIFFIE – G. D. WINIUS, Alle origini dell’espansione europea – La nascita dell’impero portoghese, 1415-1580, 101.
  7. E. HOORNAERT, História da Igreja no Brasil, 32.
  8. Nobre da corte do príncipe Henrique, que tinha ordens de «avançar o mais possível» além do Porto de Galé.
  9. Cfr. B. W. DIFFIE – G. D. WINIUS, Alle origini dell’espansione europea – La nascita dell’impero portoghese, 1415-1580, 101-102.
  10. G. E. DE AZURARA, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, 87-88.
  11. Cfr.B. W. DIFFIE – G. D. WINIUS, Alle origini dell’espansione europea – La nascita dell’impero portoghese, 1415-1580, 111.
  12. G. E. DE AZURARA, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, 90-92.
  13. Ibidem, 454.

BIBLIOGRAFÍA

AZURARA G. E. DE, Chronica do descobrimento e conquista de Guiné, J. P. Aillaud, Paris 1841

DIFFIE B. W. –WINIUS G. D., Alle origini dell’espansione europea – La nascita dell’impero portoghese 1415-1580, Il Mulino, Bologna, 1985

HOORNAERT E., História da Igreja no Brasil 1550-1800. Ed. Brasiliense, 2 ed, 1984


CLEOCIR BONETTI